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| A leitora cativa - René Magritte, 1928 |
Era sábado, 20/02/2016 e por volta das 21h aproximadamente, eu estava sentada quase no final de um coletivo em Belém, retornando do shopping após um passeio pra comemorar seis anos de namoro, e então algo aconteceu.
Como de costume, um homem subiu pela porta de trás - pra vender doce, imaginei eu instantaneamente - mas qual foi minha surpresa quando ele estava distribuindo livros!
Sim, o homem de aspecto sofrido pela luta diária, despenteado e de aparência cansada, contava sem pausas sua história de distribuidor da leitura na capital do estado.
Mais de 15.000 livros apontavam sua própria estatística, e eu não conseguia não prestar atenção naquilo tudo.
Foi então que começou a distribuição. Livos de sintaxe, História do Pará, educação.
"Quem quer?" E um a um os passageiros levantavam as mãos em aceitação à história daquele homem.
O clímax do momento se deu quando exaurido pelo dia, ele denunciou que havia doado mas precisava também receber, que o que dispunha no momento para garantir o jantar do sábado, eram três exemplares que incluíam Adam Smith, Literatura e um outro que não lembro.
"Estes - disse ele - são meu jantar de hoje, apenas R$ 10,00."
Aquela cena inteira me fez ter reflexões infinitas em apenas 15 min que foi o máximo que ela deve ter durado.
Ao final ninguém comprou os exemplares, mas todos ajudaram como puderam.
Eu confesso, não me movi, nem pra aceitar no momento da doação, nem pra contribuir com o jantar [
mea culpa]
Mas aquele momento tão enriquecedor me paralisou, de verdade. Eu precisei digeri-lo, torná-lo parte de mim.
Sou aficionada por livro, por leitura, por gente que faz o bem mesmo tendo zero condições pra isso, e aquela cena entrou para aquelas que nunca esquecerei.
Dizem que a leitura é alimento e sim, eu pude comprovar isso nesse sábado.
No caso daquele homem sem nome, porém com muita história, essa máxima se concretizou e se concretiza da forma mais literal possível.